As feministas podem falar ?

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Tradução de Teresa Castro, com a colaboração de Tatiana Monassa

Em resposta à tribuna publicada no jornal Le Monde sobre a “liberdade de importunar”, mais de 200 feministas expressam a sua preocupação relativamente à deslegitimação da luta contra o assédio sexual. “No momento em que mulheres americanas de poder ativas nas indústrias culturais, na pesquisa e no domínio das novas tecnologias colocam os seus privilégios ao serviço das mulheres mais vulneráveis … uma centena de homólogas francesas escolhem unir-se contra a justiça social”.

No dia 9 de Janeiro de 2018, no momento em que Oprah Winfrey afirmava, durante os Golden Globes nos Estados Unidos, “Vivemos tod@s demasiado anos numa cultura quebrada por homens brutalmente poderosos … Mas o tempo deles chegou ao fim! O tempo deles chegou ao fim!”, no mesmo exato momento, uma tribuna publicada em França no jornal Le Monde, assinada por mulheres maioritariamente brancas e burguesas (que não utilizam a escrita inclusiva), vinha socorrer esses mesmos homens poderosos, reivindicando o seu “direito a importunar” as mulheres. As signatárias informavam-nos que, de qualquer forma, “os acidentes que podem afectar o corpo de uma mulher não atingem necessariamente a sua dignidade”. E que “a violação / estupro é um crime. Mas…”. Mas o quê? Que “o engate / cantada insistente ou desajeitado/a não é um delito, nem a galanteria uma agressão machista”.

Que nós saibamos, Harvey Weinstein não é um homem acabrunhado e tímido, um pouco desajeitado, incapaz de expressar os seus sentimentos, vulnerável face às mulheres e que terá por isso tentado manifestar de forma particularmente desastrada o seu desejo. Aparentemente, as relações de poder – tais como os contextos político, histórico e económico que as produziram – não interessam as defensoras duma “liberdade de importunar” cujo único fundamento são apenas as suas sacrossantas experiências pessoais.

Ora, sob o pretexto de alertar para a confusão entre assédio, violação e sedução, o texto em questão acaba por a produzir. A mesma estratégia já tinha sido empregue durante o caso Dominique Strauss-Kahn para denunciar as derivas dum puritanismo galopante cuja conclusão lógica seria a abolição do que era considerado como apenas “uma doce troca entre os sexos”. No contexto de uma acusação por agressão sexual, este tipo de preocupação era, no mínimo, inquietante. Hoje, esse receio é ainda mais alarmante uma vez que o mesmo contribui para desqualificar a palavra de milhões de mulheres de todas as origens sociais que decidiram testemunhar após um silêncio demasiado longo e partilhar as suas experiências com os instrumentos de que dispõem: as redes sociais. Ao apresentar-se como um apelo ao zelo e um projeto de libertação moral, esta tribuna contribui apenas para uma coisa: reafirmar o poder dos dominadores e apelar à ordem conservadora.

Da mesma forma, convocar o espectro da censura no exato momento em que o que foi calado durante tanto tempo é finalmente enunciado e explicitado constitui uma estratégia de inversão: aos olhos das 100 signatárias, as vítimas são, na realidade, os carrascos.

Será que as signatárias da tribuna do Le Monde leram tão somente o que elas qualificam de campanha de “delação” ou, de forma bastante hiperbólica, de “vaga de purificação”? Ter-se-ão dado ao trabalho de escutar o que essas mulheres viveram? Todos os testemunhos publicados nos Estados-Unidos, em França e noutros países, falam de violência, de medo, de terror e de vergonha. Em todo o lado, as mulheres afirmam não confundir as relações sexuais e a sedução consentida com os gestos e os insultos vividos.

De que campo provém então a confusão? Ela está certamente presente entre aquelas que acreditam que o assédio é apenas uma forma de “engate / cantada pesado/a”. Este absurdo não deve ser imputado à ignorância ou a um desconhecimento deste tipo de situações. Ele remete para uma vontade política deliberada: negar a permanência das violências sexuais e sexistas, sobretudo quando estas últimas são praticadas por homens de poder, perpetuando-se assim nos meios mais privilegiados.

Desqualificar a legitimidade da luta contra o assédio sob pretexto de querer preservar o prazer dum pacto tipicamente francês entre os sexos equivale a defender um confortável sistema que protege a dinâmica de poder entre os sexos – um sistema onde essas mulheres têm uma voz socialmente audível e autorizada pelos média / pela mídia. No momento em que mulheres americanas de poder ativas nas indústrias culturais, na pesquisa e no domínio das novas tecnologias colocam os seus privilégios ao serviço das mulheres mais vulneráveis (mulheres da classe operária, mulheres racializadas, mulheres com deficiências) ao lançarem a campanha “Time’s Up”, uma centena de homólogas francesas escolhem unir-se contra a justiça social.

A exceção cultural francesa é aqui apenas um pretexto para reciclar a acusação de “puritanismo”, esse grande clássico do antifeminismo francês, de que o texto retoma todos os lugares-comuns. Invenção pretensamente estado-unidense, o feminismo partilharia um dos principais problemas dessa sociedade: o seu puritanismo e o seu pudor. As feministas opor-se-iam assim aos homens e à liberdade sexual enquanto defensoras da virtude. Mas de que liberdade sexual se trata, ou melhor, quem é que ela beneficia? Quem goza da imperiosidade do desejo masculino? Onde é que se exprimem e se desenvolvem o desejo e o prazer das mulheres? Quem é sistematicamente importunad@? As signatárias da tribuna não respondem a estas perguntas, a não ser num contexto heteronormativo e muito codificado que não deixa grande espaço para a invenção e para a rebelião – ainda que as autoras do texto se queixem de que as intimam a falar como “deve ser”. O puritanismo não reside necessariamente onde se espera…

Por outro lado, o facto do texto ter sido escrito por mulheres decorre também duma estratégia bem conhecida: opor às feministas outras mulheres que, contrariamente às primeiras, não cedem, supostamente, à vitimização.

Encontramos aqui um tipo de argumentação recorrente cujo intuito é desqualificar as revindicações de igualdade, sugerindo que aquelas e aqueles que as defendem exageram, ou vão “longe demais”, ou se tratam de “extremistas”. Ora, esta forma de deslegitimação clássica dos grupos minoritários (em particular quando se trata de desqualificar os modos de ação de grupos racizados) serve sobretudo para desviar a atenção das lógicas de desigualdade que estruturam a sociedade. Em vez de reconhecer que determinados grupos sofrem tratamentos distintos, acusam-se e responsabilizam-se tanto os principais interessados como aqueles que denunciam esses mesmos tratamentos. São estes que sublinham que os últimos são o resultado de uma história e que abrem, de facto, a possibilidade de questionar o perímetro de certezas sobre o qual se funda a ordem política e social.

Ao testemunharem nas redes sociais, as mulheres em questão fizeram uma escolha política: a de se emancipar da condição de vítima silenciosa e isolada à qual se encontravam cantonadas, participando numa insurreição colectiva e internacional. Qualquer crítica da ordem estabelecida contém em si um ato revolucionário e o carácter espontâneo do testemunhos publicados na Internet revela também que estes se tratam de um movimento de autodefesa.

Fica assim claro que esta união das mulheres parece tão perigosa que é necessário destruí-la, denegrindo-a nomeadamente como a-política (tratam-se de histéricas ou de choramigas) ou, ao contrário, como sendo excessivamente política. Este desconhecimento profundo do movimento feminista revela-se precisamente aqui. As signatárias da tribuna do Le Monde escrevem: “Enquanto mulheres, não nos reconhecemos nesse feminismo que, para além da denúncia dos abusos de poder, assume os contornos dum ódio dos homens e da sexualidade”. Tal como recorda a feminista negra bell hooks em Feminism is for Everybody (O Feminismo é para Tod@s) em 2000: “o feminismo é um movimento que pretende acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão. […] Esta definição deixa bem claro que o movimento não é antimasculino. É evidente que o problema é o sexismo”.

A forma como se aprecia o corpo das mulheres, a sua mobilidade no espaço público e o seu controlo institucional são a pedra angular dos movimentos conservadores desde há séculos. Ainda hoje, a pretensa binariedade “original” e “biológica” dos sexos masculino e feminino é vigorosamente reafirmada afim de reconduzir uma ordem de género que não ameace as conquistas do patriarcado. A nossa resposta é uma abertura a todas as vozes que não se podem resumir a uma única e a todos os pontos de vistas impossíveis de nivelar ou de uniformizar. Quisemos reagir o mais depressa possível a uma retórica reacionária que nos parece ainda mais perigosa e nefasta por pretender defender a liberdade.

 

Autoras:

Hourya Bentouhami, filósofa ;

Isabelle Cambourakis, editora ;

Aurélie Fillod-Chabaud, socióloga ;

Amandine Gay, realizadora ;

Mélanie Gourarier, antropóloga ;

Sarah Mazouz, socióloga ;

Émilie Notéris, autora e teórica queer.

 

 

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